Ritmo da Vida | Uma História Real e Os Meyerowitz



Trilha Sonora do post: Oração ao Tempo - Maria Bethânia

Triiiiiim. O despertador toca. Você acorda cheio de vida, feliz e com um sorriso que vai de orelha a orelha. Você não tem preocupações e aproveita seu dia ao máximo.

Triiiiiim. O despertador toca para mais um dia. Você acorda um pouco desconfiado. Algumas coisas parecem diferentes, você quer respostas. Tudo é motivo pra reclamação e nem todas suas perguntas são respondidas. Você não aguenta todo mundo querendo te dar ordens, só quer ser livre, independente e que amanhã chegue logo. Que mundo chato!

Triiiiiim. Que m#%$@ de despertador!  Você acorda de ressaca. Que dor de cabeça! Que saudades dos dias anteriores!  Seus olhos estão inchados. Não quer sair da cama. À noite, você volta para casa cansado após um dia chatíssimo, monótono, sem nenhuma aventura.

Triiiiim. Cof cof. Você acorda mais uma vez. Toma os remédios. Tudo no seu corpo dói. Dá uma volta no quarteirão, fala com todo mundo sobre seus dias anteriores, mas ninguém dá a mínima.

Triiiiim. Triiiiim. Triiiiiim. O despertador toca.

Tempo. Provavelmente, um senhor aposentado sem nada pra fazer da vida e que decidiu sacanear com todo mundo. Quando jovens, queremos acelerar o ponteiro do relógio o máximo possível,  mas aquela porcaria parece não sair do lugar. Buscamos independência, liberdade, dinheiro... Quão inocentes! E quando damos conta da burrada que fizemos ao envelhecer, já é tarde demais. O mesmo ponteiro que não acelerava antes, agora não diminui a velocidade.

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Square Heads de Mana Neyestani
Só uma pessoa realmente entendeu o conceito de tempo. Nada de Einstein e sua teoria da relatividade, mas o pequeno grande Peter Pan. Ele foi o primeiro a entender que a felicidade da vida está na infância, na inocência. A verdadeira liberdade está na ignorância (com todo o respeito da palavra), ao contrário do que se prega. O conhecimento e sabedoria só serve pra conseguirmos enxergar os grilhões em nossas pernas e as grades a nossa volta.

Uma História Real (The Straight Story) e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (The Meyerowitz Stories) são 2 filmes excelentes que tratam justamente disso, pessoas reais, famílias reais passando por situações reais onde o tempo tem um papel tão importante quanto qualquer outro personagem.

Uma História Real (The Straight Story)




O primeiro trata-se do filme mais exotérico de David Lynch, mais pé no chão, mais pele, relações humanas, mundo real e físico. Traduzindo de maneira simplista a carreira de Lynch através de Platão, enquanto a maioria de suas obras trata do mundo das ideias, The Straight Story trata do mundo sensível, palpável, real.

Resumindo para não estragar nem um pouco sua experiência, Alvin Straight (Richard Farnsworth) é um senhor já de bastante idade que faz uma viagem para se encontrar com seu irmão que teve um problema de saúde. Mas como todo bom road movie, a viagem acontece também no plano das ideias (trazendo de volta Platão), uma viagem interior de auto conhecimento. Atuações verdadeiras é a palavra de ordem, por transmitir toda uma sinceridade e emoções de maneira sutil. Além de uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente ao trazer o clima de road movie, liberdade, mas também conseguindo trazer um peso, um drama que a história pede.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe


Já o filme dirigido e escrito por Noah Baumbach foca um pouco mais nas relações familiares com o Harold Meyerowitz, também um senhor de idade, mas bem mais aberto que Sr. Straight e que fala o que vem na cabeça, mais falho, talvez com mais defeitos que qualidades, mas também real. Real por mostrar que um bom personagem deve ter camadas, profundidade e pra isso ele deve ser construído por tudo aquilo que ele diz e tudo aquilo q ele não diz. Essa é a grande brincadeira do filme, pessoas diferentes uma das outras na maneira de viver, ver a vida e transmitir seus sentimentos. O filme tem um ar que lembra um pouco os filmes de Woody Allen, mas focando num relacionamento familiar. Você pode conferir esse belo filme pela Netflix.

Enquanto você lia esse post, o ponteiro do seu relógio andava mais um pouco. Espero que essa leitura tenha valido esse tempo valioso perdido que não volta nunca mais.

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